sexta-feira, 6 de abril de 2007

O VENTO

O vento me segue, fluindo numa outra estrada.

Derrapo sobre o medo católico dos meus dedos.

Não o toco. Se desafiar seu riso, não sobrevivo.

Sigo o vento, me seguindo.

Vendo os olhos, ouvindo...

Flutuando na penumbra envenenada,

sujo os dedos de arnica e espirro uma risada.

Atenção no front – a guerra continua.

Não sem o mito. A fagulha alternada do grito.

Folhas negras se machucam no asfalto.

O falho olfato do orgulho nato.

Olho do fato, germe do mato – juro que mato!

O remédio é um instante bem observado.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Luz e sombra

A luz é essencial numa foto. Mas, no meio da madrugada, entre pensamentos distantes e nostalgia, a luz incomoda. E é difícil, neste momento, tomar a decisão de abrir um flash e queimar os rumos naturais do cérebro. Melhor uma velocidade lenta, porém, pulsante, como o coração que descansa no fluir especular da respiração. A foto pode até sair tremida, mas o que importa é o contato preciso do coração com as lembranças, seguido de uma imagem, mesmo que distorcida. A luz dá lugar a sombra que, para continuar nutrida, compensa sua perda com alguma claridade. Os pensamentos idem.

quarta-feira, 28 de março de 2007

A minha fotografia


Quando pressiono o botão de disparo da minha câmera fotográfica, ponho tudo a perder. Perco a noção de tempo, espaço e nem sei se as estrelas ainda estão vivas. Perco alguns neurônios, sais minerais e uma boa parte de glicose, também. Perco aquela sensação vertiginosa do flash, pois estou com o olho no pentaprisma e apenas sinto a vibração do diafragma. Minha mente também abre e fecha. A luz entra e, enquanto a última cena ainda passeia pelos nervos, procurando um local no lóbulo para se alojar, a outra já está acontecendo e meu dedo, novamente, está pronto para mais um clique. Tenho na memória que somente o violino, também instrumento de arte como a câmera, é usado pelo rosto durante uma performance criativa. Minhas fotos também, às vezes, possuem a agudez de um violino. Agudez suave e digna, diga-se de passagem. Sentir o bater da foto com o rosto colado na câmera é como tocar um elástico entre os dentes. Ninguém ouve, ninguém vê... E o mistério de uma foto é tudo o que eu não posso perder.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Início

As fotos se manifestam. As letras as interpretam.